Onde estão as histórias que ficam por contar?

A esplanada-terraço mais concorrida de Maputo abriu ao fim da tarde de sexta-feira, 6 de Julho, para receber a jornada inaugural das Oficinas. Chegavam os participantes e a música estridente, vinda da vizinhança e que inundava a plateia com os novos hits.

Quebrar o gelo com uma introdução teórica sobre a globalização económica e o mundo das novas tecnologias só mesmo de dois lunáticos. Apesar da desconfiança (os orientadores também desconfiam da teoria…), no final da sessão, já temperados pela 2M, galinha com piripiri e rissol de camarão, alguns participantes iam entabulando conversa e manifestando os seus pontos de vista.

A oficina terminou com a realização de mapas colectivos. O enfoque era o contexto social e a informação em Moçambique. O objectivo do Mapa Colectivo (foram formados 6 grupos) e a reflexão partilhada (e não individual) sobre temas gerais que a todos dizem respeito. Esta dinâmica visa na essência potenciar o espaço de discussão e a participação, quebrando desta forma com a tendência para a análise meramente pessoal e a passividade cidadã. Nem a cacimba nem a noite escura demoveram os grupos de mapear o país. Agora, falta transformar a varanda do Índico.

[Descarregar as perguntas-gatilho (.pdf) usadas para a análise do contexto social e do mundo da informação em Moçambique. Parte dos materiais desta sessão foram adaptados do projecto Iconoclasistas, tais como estas instruções para a realização de uma oficina de mapeamento colectivo.]


Tácticas de Criação e Autonomia

O que é a Mídia Cidadã? O que é o Info-activismo? Nesta sessão foram apresentados vários exemplos de movimentos sociais emergentes que adoptaram os média digitais para disseminarem as suas campanhas.

Projectamos o documentário 10 Tactics da Tactical Technology Collective, que inclui 35 entrevistas com activistas de direitos humanos de vários cantos do mundo.

10 tactics for turning information into action (Trailer) da Tactical Technology Collective no Vimeo | mais info aqui: informationactivism.org

O filme serve de linha condutora para aqueles e aquelas que queiram exlorar novas formas de criar activismo social em rede, e conhecer possibilidades inovadoras de uso de ferramentas digitais e de 10 tácticas “para transformar informação em acção”:

  1. Mobiliza as pessoas: trá-las para a acção
  2. Testemunha e documenta: alguém está a ver
  3. Visualiza a tua mensagem: cria gráficos
  4. Amplifica histórias pessoais: ninguém está a ouvir
  5. Provoca um sorriso: tira partido do humor
  6. Gere os teus contactos: conhece a tua rede
  7. Como usar dados complexos: simplifica
  8. Usa a inteligência colectiva: reporta em 1ª mão
  9. Deixa as pessoas colocarem as questões: tecnologias que escutam 
  10. Investiga e expõe: revela a verdade

São exemplos de utilização criativa e efectiva de suportes digitais (blogs, twitter, facebook, mapas) como instrumento de democratização e de fortalecimento de uma cultura cidadanista. Quando a liberdade de expressão e a cultura participativa livre se opõem à pirâmide hierárquica de poder e ao controlo da informação. Quando são criadas redes pela união da diversidade de olhares críticos e independentes sobre a realidade e o mundo. Pela circulação horizontal da informação e a tomada colectiva de decisões. Pela intervenção e a transformação directa da realidade. Pelo efeito enxame de mobilização social. Inspirados para comunicar a realidade de Moçambique?


Parte I: Auto-defesa e Descolonização

O que é uma Crítica aos Media?

A liberdade de Imprensa significa liberdade de expressão? Quem são os donos dos meios de comunicação? Para quê a censura, se o poder dominante dispõe dos meios de comunicação necessários para formatar uma realidade única?

A Agenda: Agência da Verdade. A confluência de interesses entre o poder político e económico e a indústria dos media. Existe jornalismo quando prevalece o conceito de Agenda como motor da produção de notícias? Quem estabelece a Agenda? A Agenda como dado adquirido e fulcro que define os critérios de noticiabilidade. A repetição de uma realidade fabricada – a notícia contínua sem novidade jornalística apresentada como fonte de novidade e actualidade – na construção de uma identidade cultural padronizada e normalizada. A promoção de verdades únicas que sustentam e legitimam os interesses de uma elite.

A vulgarização da educação mediática enquanto pura ideia «benigna» dos media.

Os fluxos unilaterais de comunicação – Dominação Norte vs Sul? Centro-Periferia? Ou Estado + Mercados + Media (poderes dominantes de uma elite) vs culturas minoritárias, as camadas empobrecidas e desempoderadas, a info-exclusão, a repressão das sub-culturas contestatárias.

O livre acesso à informação. Para quê acumular informação e conteúdos (a hiper-informação, o hiper-texto-contínuo, a hiper-facebooquização da comunicação humana), se não dispomos de tempo para pensar criticamente, de meios para decidir, da autonomia para fazer?

A Internet e o mito de uma inteligência colectiva. Como evitar que a acumulação de meios tecnológicos nos transforme em analfabetos equipados?

Desejamos uma descolonização cultural e mental? Onde está a comunicação da vossa realidade? Onde pára a vossa liberdade de expressão? Como realizar a democracia que falta?